Até assinatura do Decreto que flexibiliza posse de armas, brasileiro não sabia a diferença entre “porte” e “posse” de arma

Por: Leandro Bortolassi
28/02/2019

Levantamento realizado pela Eight Comunicação Integrada aponta também que a imprensa é a maior e mais influente fonte de informações sobre o assunto, responsável por 98% das buscas relacionadas ao assunto na Internet

As discussões em torno da flexibilização para aquisição de armas de fogo geradas pelo Decreto 9.685/2019, mais do que posições a favor ou contra a medida, revelam que o brasileiro desconhecia a diferença entre ‘porte’ e ‘posse’ de arma até a assinatura da Lei pelo presidente Jair Bolsonaro. Essa é uma das constatações do estudo Opinião pública e o Decreto da Posse de Armas: o impacto no comportamento digital do brasileiro, elaborado pela Eight Comunicação Integrada, que analisou o comportamento digital de usuários que buscam informações sobre o assunto na Internet.

O mapa, realizado com base em Data Science – que analisa diferentes bases de dados para geração de insights que auxiliam a tomada de decisões – cruzou informações públicas geradas a partir do Google, do Ministério da Justiça, Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).  “Nosso maior objetivo com esse mapeamento era identificar e transformar fatores, até então subjetivos, em análise estatística sobre uma situação. Para isso, utilizamos uma gama ampla de informações que nunca haviam sido combinadas”, explica Leandro Bortolassi, sócio-fundador da Eight e um dos responsáveis pelo estudo.

Para se ter ideia sobre a relevância da análise, o ponto de partida do levantamento foi a comparação – na base de dados do Google Trends – da quantidade de incidências dos termos ‘Posse de Armas’ e ‘Porte de Armas’ nos últimos 12 meses.

De todo o histórico analisado, predominam de maneira acentuada as pesquisas pelo termo ‘Porte de Armas’, que é a permissão de portar consigo uma arma de fogo, mas que não é o objeto tratado pelo Decreto. Já as buscas por ‘Posse de Armas’, que é a permissão de possuir uma arma registrada dentro de um imóvel sempre apresentaram resultados muito inferiores, inclusive durante o período eleitoral, quando o assunto passou a ser abordado com maior intensidade. Esse cenário, no entanto, muda dinamicamente em 15 de janeiro, exatamente a data de assinatura do Decreto, quando ocorre uma inversão e as buscas por ‘Posse de Armas’ registram um crescimento de 2400%, atingindo 3,2 vezes o volume de buscas por ‘Porte de Armas’, mais do que o triplo. Foram 200 mil menções, de acordo com os dados do Google Trends.

Diante do comportamento apontado pela base de dados do Google Trends, a Eight Comunicação – por meio da plataforma Eight Data Science Index – passou a analisar fatores que poderiam estar relacionados às buscas em torno do assunto:

Regiões mais violentas não são as mais interessadas

O discurso do governo para flexibilização da posse de armas era apoiado em um pleito do cidadão que vive em localidades com altas taxas de violência. Um dos itens alterados no Decreto especifica que têm direito a requerer a posse de arma de fogo cidadãos residentes em áreas com elevados índices de violência urbana, localizadas em estados com taxa anual de 10 homicídios para cada 100 mil habitantes.

No entanto, com base nas informações de geolocalização e dos mapas da violência fornecidos pelo Ministério da Justiça, o estudo constata que as buscas por informações referentes ao Decreto não estão relacionadas com indicadores de homicídios. Pelo contrário: pessoas que residem em áreas com maior taxa de homicídios por armas de fogo são as que menos pesquisaram sobre o assunto. A maior incidência de buscas ocorre exatamente em regiões cujas taxas de homicídios causados por armas são menores.

Efeito Bolsonaro

Entre as hipóteses geradas nas discussões, havia o senso comum de que os maiores interessados em um decreto para regulamentar a aquisição de armas de fogo seriam os eleitores do presidente Jair Bolsonaro. No entanto, tendo como base o mapa eleitoral do segundo turno fornecido pelo Tribunal Superior Eleitoral e a incidência das buscas referentes à posse de arma, existe uma associação de apenas 12%, o que descaracteriza essa hipótese.

Diante disso, é possível afirmar que o interesse por informações referentes ao assunto (posse de arma) independe do resultado eleitoral. Trata-se de um índice muito baixo para justificar que tenha sido impulsionador na vitória de Bolsonaro durante a campanha eleitoral. É uma medida que não está na prioridade de buscas por informações do cidadão, nem mesmo da base eleitoral do presidente.

Apesar de o senso comum apontar que o Decreto esteja muito intrínseco na imagem do presidente, esse efeito é o oposto no comportamento do usuário de internet. Quando analisado o potencial de relação entre as buscas por informações sobre a posse de armas e o termo ‘Bolsonaro’, o estudo aponta que em 76% dessas pesquisas, realizadas no mesmo período (11 a 17/01), não estavam relacionadas.

A influência da imprensa

A imprensa é a maior e mais influente fonte de informações sobre o Decreto de flexibilização da posse de armas. A repercussão do assunto na imprensa explica claramente o aumento de 2400% no volume de buscas por informações sobre a ‘posse de armas’ em relação a ‘porte de armas’. Foram analisadas 2.200 reportagens publicadas e veiculadas nas mídias impressa, online e TV no período de 90 dias anteriores à assinatura do Decreto.

A análise de Regressão Linear Múltipla, que é capaz de analisar os principais aspectos que influenciam um cenário,  indica que 98% do interesse da opinião pública online foi impulsionado pela cobertura jornalística referente à assinatura do Decreto.

O estudo compara os volumes de buscas por ‘porte’ e ‘posse’ de armas nos 12 meses anteriores e a incidência desses mesmos termos no noticiário, por meio de text mining. Das 75.070 palavras encontradas na amostra, excluindo preposições e números, foram analisadas 40.300, dentre as quais foram identificadas 6.581 repetições. As palavras ‘arma’ e ‘armas’ foram as que mais incidiram nas reportagens. A palavra ‘posse’ apareceu 3,2 vezes mais do que a palavra ‘porte’.

A leitura direta dessa análise é que a cobertura jornalística foi predominantemente concentrada no Decreto, sem conteúdo comparativo entre as modalidades ‘posse’ e ‘porte de arma’. A incidência dos termos ‘decreto’ e ‘posse’ se correlaciona com o pico de buscas pelos mesmos termos no mecanismo de notícias do Google durante o mesmo período.

Para download do estudo “Opinião pública e o Decreto da Posse de Armas: o impacto no comportamento digital do brasileiro”, acesse: http://bit.ly/EightComunica

Eight Data Science Index é uma ferramenta de inteligência baseada em Big Data. É a primeira a utilizar Data Science, Machine Learning, Deep Learning, GeoData e técnicas de econometria, modelagem, estatística inferencial e espacial exclusivamente para uma plataforma de comunicação corporativa.