Charlottesville: nem direita, nem esquerda. O pior lado do ser humano

Por: Leandro Bortolassi
15/08/2017

Nas manifestações do último fim de semana em Charlotteville, além da bandeira dixie, dos uniformes da Ku Klux Klan, um número grande de manifestantes vestiam camisetas da cruz suástica.

Desde que as manifestações em Charlotteville, na Virginia, explodiram na semana passada, observamos um reflexo difuso aqui no Brasil, uma tentativa de se criar um paralelo com nossa atual situação política. É uma situação complicada, pois se misturam uma série de questões desconectadas e uma cobertura superficial da imprensa, o que favorece a formação de um volume muito grande de besteiras publicadas.

Esses “atos” começaram em protesto à retirada da estátua do General Robert E. “Lee”, que, durante a guerra civil americana (1861 – 1865) liderou os exércitos dos estados do Sul, na época chamados de Confederados. Importante lembrar que a guerra civil, ou guerra da secessão, resumidamente, aconteceu numa disputa ideológica entre os estados do Norte e do Sul em relação à escravidão. O conflito teve início um ano antes, quando o republicano Abraham Lincoln foi eleito presidente dos Estados Unidos e manifestara que seu governo não toleraria a expansão da escravidão em território norte-americano, como queriam os estados do Sul. Lincoln nunca foi um abolicionista, diga-se de passagem. Era contra a expansão, pois sabia que, inevitavelmente, esse regime cairia em poucos anos. Mas, também achava radical uma abolição com efeito imediato.

Na época, a economia norte-americana ainda não era industrializada e o algodão, cultivado pela mão-de-obra escrava nas fazendas do sul do país, era um dos principais produtos de exportação dos Estados Unidos. O fim da escravidão significaria um impacto econômico muito forte para esses fazendeiros. Por isso a resistência. Após os fracassos nas tentativas de negociações e a invasão do Forte Sumter, Lincoln declarou guerra aos Confederados e a abolição como bandeira.

Quatro anos de batalhas e mais de 600 mil mortos depois, os Confederados se renderam e a escravidão foi abolida. Apesar da derrota, General Lee se tornou um símbolo da incursão dos estados do Sul na conquista de território do Norte. Com a abolição, a derrocada das fazendas de algodão foi inevitável, uma vez que sua força de produção era baseada em trabalho escravo. O impacto econômico, os estados destruídos, as fazendas incendiadas levaram os antigos donos de terras a organizar movimentos de perseguição e violência a ex-escravos, como a Ku Klux Klan. Após o fim da guerra civil, ainda se arrastaram por quase 100 anos o desrespeito aos diretos civis e total intolerância, como a segregação de negros e brancos em alguns estados. Escolas separadas, lugares definidos no transporte público, proibição do acesso a educação superior à população negra, pelo menos até a primeira metade da década de 60.

General Lee, assim como Ernesto “Che” Guevara estampou camisetas, virou estátua. Também batizou um Pontiac vermelho de uma série de TV da década de 70, The Dukes of Hazzard. A bandeira dixie, que representava o exército Confederado, com fundo vermelho e um X azul cravejado de estrelas brancas, hoje é associada como um símbolo do racismo, assim como a cruz branca dentro de um círculo com fundo negro, que estampava as túnicas dos membros da KKK. O baterista remanescente da banda Lynyrd Skynyrd, Gary Rossington, em 2012, ao abolir a bandeira como um ícone usado pelo grupo de hard rock por mais de 40 anos, gerou uma controversa manifestação de repúdio entre seus fãs .

Nas manifestações do último fim de semana em Charlotteville, além da bandeira dixie, dos uniformes da Ku Klux Klan, um número grande de manifestantes vestiam camisetas da cruz suástica. O símbolo hindu, que ilustrava amuletos de boa sorte e felicidade da foi subvertido e se transformou na representação do Partido Nacional Socialista da Alemanha, cujo líder, o austríaco Adolf Hitler, utilizou para instaurar o nazismo na Europa.

Aqui no Brasil, o que se observa é o mau uso intencional dessas imagens por fanpages ligadas a grupos políticos tanto de direita quanto de esquerda. A imprensa e os grupos de esquerda chamam a manifestação em Charlottesville de ato da extrema-direita. Em resposta, os grupos de direita, ou anti-esquerda, tentam explicar uma tese de que o Partido Nacional Socialista era, na verdade, uma organização política de esquerda, já que pregava um estado como interventor econômico, educação por doutrinação, uma política desarmamentista, censura à imprensa e mais uma longa lista de itens.

No entanto, Charlottesville não é uma manifestação política e não deve ser tratada como tal. É um picadeiro para celebrar o horror, para rememorar o que há de mais vergonhoso na mente humana. Alguém que veste um símbolo que representa a intolerância, o extermínio, o ódio, a supremacia de algum grupo, não pode ser chamado de manifestante. Não faz parte da esquerda ou da direita. É alguém que vive nas sombras da ignorância, que não tem dignidade, não tem lado, que não merece ser ouvido. É um criminoso. É alguém que não tem a condição mínima para viver em sociedade.

Agora, usar de fatos como estes numa tentativa de desqualificar grupos por discordância ideológica, ou mera batalha de egos, é ser pior do que tudo isso. Indiscutivelmente, é uma tentativa burra, mas, ao mesmo tempo, perigosa de manipular a opinião alheia. Misturar mentira disfarçada de informação é tão criminoso quanto a incitação de ódio. Usar ironia para abordar um assunto desse tipo é descer ao nível do oficial que apertava o botão da câmara de gás nos campos de concentração. É assumir que o ódio venceu e que nada mais importa, além da derrota do oponente. É ser sádico em ver a marca do salto da bota na testa do adversário. É cortar um oponente caído só para ver seu sangue. É atacar simplesmente por sentir que existe vida.